Vou ser sincero, ser escritor é contar mentiras para fazer com que os outros se sintam melhor. E eu minto para mim também, viu? Repito em minha cabeça meia dúzia de lembranças falsas até que elas se tornem reais. No início era só um monte de bobagens para nutrir minha esperança e me manter vivo, mas a essa altura da vida eu já não sei mais quais memórias são verdadeiras e quais foram plantadas.
Conheci a Joana na 5ª série. Sei que ela realmente existiu porque tenho uma dessas fotos anuais de colégio onde aparecemos juntos. Eu só não sei mais se ela foi o amor da minha vida ou se foi só uma colega de turma que me achava um nerd esquisito e com quem eu mal trocava um oi.
Me confundo porque comecei a mentir muito cedo, em parte para passar o tempo imaginando como seria uma vida mais emocionante ou apenas diferente da que eu tinha. O problema é que mentir vicia, é um vício difícil de largar e acabei tornando isso uma profissão.
Sendo tudo real ou não, dor é uma coisa verossímil, né? Gera muita identificação e tal… aí eu pego esse monte de mentiras, junto tudo formando uma maior ainda, aumento alguns fatos, acrescento outros detalhes, troco os nomes das pessoas e… voilà! Nasce mais um livro, me autointitulo escritor.
A verdade é que eu escondo a minha frustração publicando frases de efeito com palavras bonitas, mas ao invés disso poderia só postar uma foto sorrindo e fingindo ter uma vida perfeita no instagram. Sou meio antiquado.
Escrito em julho de 2015.