Oceanos não cabem em copos d’água

Eu acho que nunca tinha me dado conta do meu tamanho.

Eu lia sobre essas mulheres que se derramam e não pedem desculpas por isso,  eu via as mulheres à minha volta que são forças da natureza. Do lado de dentro ecoava um desejo de ser como elas, sem que eu me desse conta que talvez já fosse.

Demorei pra me dar conta do meu tamanho.

Porque durante muito tempo eu vivi em um mundinho quentinho e confortável onde eu tinha espaço pra me espalhar. Quanto mais eu crescia, maior esse espaço ficava. E eu sabia ser essa casa que se amplia também. Éramos um universo próprio em expansão…

Podia ter sido infinito, sabe? Podíamos continuar crescendo e crescendo sem limites ou fronteiras, mas tem coisas que são feitas pra acabar e um dia decidimos arrebentar as paredes. Destruímos a casa, colorimos os destroços e enfeitamos com flores. Há de se honrar também os finais.

E não é como se não coubéssemos mais nos nossos abraços, ou como se essas nossas casas tivessem ficado pequenas demais… não é nada disso. Percebi depois, éramos imensos. O fato é que crescemos tanto, fomos tanto, fizemos tanto, que em algum ponto descobrimos que cada um queria ser sua própria casa. Morar em si mesmo pra descobrir o tamanho da própria força. Há de se honrar também os recomeços.

A essa altura, eu não tinha noção do tamanho da casa que já tinha construído em mim. Não fazia ideia da quantidade de cômodos que fui criando, colorindo e decorando ao longo dos anos. Incontáveis, eu diria.

No processo de descobrir cada quarto escondido, cada mural pintado vagarosamente, cada cor e textura cuidadosamente escolhida na casa que tenho em mim, eu descobri que sou grande demais. Imensa. Infinita. E que não faço a menor questão de tentar caber em lugares que não me comportam.

Não vou ser menos pra caber em espaços que não me acolhem. Não vou insistir se a porta do outro não se abre pra mim.

Minhas portas e janelas são escancaradas. De longe se vê as cores que carrego. Não tenho tempo nem disposição pra quem se fecha em si mesmo e não deixa ninguém se aproximar. Eu não estou em guerra, não vou forçar minha entrada. Cada um tem suas próprias batalhas e eu só permaneço onde me convidam pra ficar.

Porque finalmente vejo meu tamanho. Eu sou infinita, como aquelas mulheres que se derramam sem pedir desculpas. Sou uma força da natureza, como as mulheres que me acolhem quando sinto que sou um grão de areia.

Oceanos não cabem em copos d’água.