A grandeza das pequenas coisas

Me peguei pensando nas minhas saudades. Penso ainda mais nessas saudades em dias de cansaço, quando só tenho vontade de me isolar em algum canto, me afastar do mundo. Isso porque o melhor jeito de descansar sempre foi sentar à beira do rio que me viu crescer e procurar pedrinhas redondinhas embaixo da água. No entanto, me contento em ver o mar. Penso no tamanho do Atlântico, nas rotas aéreas, nas miudezas da rotina ao longo dos anos…

Me peguei fazendo listas das miudezas das minhas saudades. Todas as pequenas coisas que eu queria nunca esquecer.

As luzes de freio de caminhões brilhando no vidro do carro na volta pra casa

A narração de futebol na rádio AM misturada ao som do trânsito

As estradas estreitas e sinuosas de terra batida à beira de despenhadeiros

O ar gelado misturado com o cheiro de grama molhada e eucalipto ao amanhecer

As infinitas caixas e malas e couves e tomates e mais legumes e limões e galochas e ferramentas. Tudo carregado escada acima e meio de má vontade por duas adolescentes rabugentas

O barulho do portão de ferro fechando

As tardes que eu e minha mãe declarávamos folga para assistir séries no sofá enquanto desmanchávamos costuras

O cheiro de café fresquinho antes do sol nascer, e de novo às quatro da tarde

“Esse enfeite da mesa aqui, era pra ser uma galinha ou uma chaleira?”

O cheiro das panquecas do meu pai aos domingos

Os churrascos e almoços de domingo

As caipirinhas de sabores improváveis

O noticiário na tv da sala às 6h da manhã

Limão-cravo, pokan e ingá

O som das máquinas de costura e conseguir saber, à distância, qual máquina estava sendo usava só pelo barulho

Os gatos enrolados nas nossas pernas embaixo das cobertas no inverno

Chá de hortelã ou de limão

A carinha sonolenta de quem acordou com um telefonema no meio da madrugada e dirigiu 20km para buscar as filhas em uma festa às 4h da manhã numa época em que não existia Uber.

Puff de polvilho no meio da tarde

Deitar na cama dos meus pais depois do almoço ouvindo minha mãe contar o enredo de séries que eu provavelmente nunca vou assistir, mas que gosto de saber mesmo assim. E adormecer logo depois

O rádio-relógio de letreiro vermelho, que há décadas já desistiu de cantar, mas ainda segue comprometido na missão de contar tempo.

O barulho das teclas da calculadora e os punhados de moedas e notas que iam se formando na mesa quando meu pai fazia fechamento caixa.

As batidinhas na porta do meu quarto antes de amanhecer, acompanhadas de torradas e chocolate quente: “vi que tua luz estava acesa e tenho certeza que tu esquecestes de comer. Tem muito pra estudar ainda?”

Em alguns dias que trabalho até tarde, em fuso horário trocado, lembro das batidinhas da minha mãe na porta. Então faço sozinha o que ela fazia por mim.

Essas e tantas outras saudades da minha lista de miudezas me lembram o quanto fui e sou amada. Me lembram que a grandeza do amor desconhece fronteiras e está presente nas pequenas coisas, muito mais do que em gestos grandiosos. Então quando repito por mim mesma algumas dessas lembranças, posso sentir o abraço de quem está longe, na esperança de apaziguar um pouquinho essa saudade que já não tem tamanho.