A sensação que eu tenho é que quanto mais me conheço, quanto mais pra dentro de mim eu mergulho, quanto maior é a minha consciência e responsabilidade emocional a respeito dos sentimentos meus e do outro, mais solitária eu fico.
Falamos de imensidão e intensidade no sentir, mas esquecemos do que é necessário pra sustentar isso. Falamos em mulheres imensas, oceânicas, infinitas, mas esquecemos que pra virar essa potência toda é necessário abrir mão de afetos que não nos comportam, de lugares onde a gente não cabe, de pessoas que não tem o mesmo nível maturidade emocional que a gente. Pra ser infinita é preciso aceitar que praticamente qualquer pessoa pode caber no nosso sentir, mas que a gente muitas vezes vai ter que aprender a se acolher e dar colo sozinha porque não vai caber no sentir de quase ninguém.
É muito solitário ser tão grande e se entender tanto. E isso não é culpa de ninguém, entende? Cada um tem seu próprio caminho de autoconhecimento e a gente dá o que tem pra oferecer, faz o que consegue com a consciência e recursos que tem no momento. O que resta é aceitar que se o afeto do outro não sustenta meu tamanho, minha intensidade e minha forma de ser, ali não é o lugar em que devo estar. Já cogitei me diminuir pra caber num espaço que claramente não me serve? Sim, não vou mentir, porque é difícil deixar ir um querer que move a gente. Mas amor não pode ser feito só de movimento. Pra haver amor é preciso também de suporte, acolhimento, uma base firme para o que for construído depois.
A questão é: eu lutei demais pra ser e reconhecer o tamanho que tenho hoje. A essa altura, eu não posso e nem quero voltar atrás. Quem lutou pra ser oceano não aceita virar poça d’água. Me encolher pra caber no pouco espaço que me oferecem nunca mais vai ser uma opção.
Porto, setembro de 2024