
Era novembro de 2018.
Já fazia uns dois meses que eu tinha mudado de país e era a primeira vez que eu via o mar desde a mudança.
Nasci no interior e lá vivi parte da minha infância, mas a maior parte da minha vida foi no litoral. O mar fazia parte da minha paisagem cotidiana e por isso eu não pensava muito a respeito dele. Ele me acompanhava pelas pontes e avenidas nas minhas idas e vindas diárias. Pela janela do ônibus, me sorria iluminado nos dias de sol ou me olhava emburrado e cinza nos dias de chuva.
Eu também nunca fui muito apaixonada pelo verão, ou por passar dias inteiros na praia. Na verdade, eu frequentemente preferia ir à praia no inverno. Sentava na areia e ficava olhando as ondas, sentindo o cheiro da maresia e pensando na vida.
Na mudança de país, vim para uma cidade também litorânea, mas por algum motivo não tinha ido até a praia desde a minha chegada.
Naquele dia, dois meses depois de mudar de país sem previsão de volta, eu senti o cheiro da maresia, olhei as ondas e chorei. Muito. Transbordei toda a água salgada que vinha guardando.
Ali do outro lado do Atlântico, a um oceano de distância dos que amo, pensava que W. H. Auden tinha razão ao dizer que “ser livre é, frequentemente, ser só”. Porque quando a gente navega para longe do nosso mundo confortável, também precisa aprender a navegar para dentro de si. E esse é um processo solitário, às vezes assustador, doloroso.
Naquele momento, pensar no tamanho do mundo doía na mesma medida que a necessidade que eu tinha de sempre partir, de novo e de novo, para conhecer a vida de lugares distantes. O mundo é tão grande… a saudade também.
Já passaram cinco anos desde a minha mudança e preciso dizer que, mesmo depois de tanto tempo, olhar o mar ainda faz meus olhos encherem de água. Mas, hoje, o que me conforta em dias solitários é saber que o mesmo oceano que me olha, também abraça quem eu amo. Gosto de pensar que lá, do outro lado do Atlântico, tem alguém olhando para o mar que me sorria pela janela do ônibus. E que afinal o mundo nem é assim tão grande, porque estou a apenas um oceano de distância.
Porto, outubro de 2023