Ficção

– Um dia você vai escrever sobre mim. E vai ser um texto daqueles bem bonitos e apaixonados, daqueles que eu já te vi escrevendo tantas vezes nesses anos todos.

Fiquei sem saber se era sério ou algum tipo de piada. E ri.
Um riso alto, solto.
Você encolheu os ombros, pensou que era deboche. Não era.
Eu ri por você falar como se eu fosse assim, uma menina meiguinha, muito romântica e delicada. Impossível não rir disso. Também achei graça do brilho sonhador nos teus olhos enquanto falava, porque tenho certeza que você já sabia que eu não ia te escrever nada assim.
Você sabe bem que nem todos os meus textos são autobiográficos. Claro que muitos são, sim. A escrita sempre foi uma necessidade. Sem ela, eu explodiria, enlouqueceria, entraria em parafuso com todos os milhares de pensamentos simultâneos que me atormentam o tempo todo.
Mas, pelo amor de Deus, eu crio narrativas pra pagar minhas contas! Escrevo (com palavras ou imagens) sobre QUALQUER coisa. Minha imaginação viciada em contar histórias precisa ser direcionada para coisas saudáveis, caso contrário ela se alia à minha ansiedade e cria milhões de situações e cenários de futuros completamente improváveis e desesperadores. Então não, nem tudo é real. Boa parte do que escrevo é coisa inventada, que nunca existiu.
De qualquer forma, você meio que acertou, né? Esse não é um daqueles textos bem bonitos e apaixonados (já começo a rir outra vez com essa imagem de menina romântica e encantada que tua frase criou), mas escrevi sobre você. E você também não existe. Acabei de te inventar.