A Torre

Essa torre não vai te salvar, criança.
E também não adianta esperar que alguém suba até aí, carregando promessas de resgate, amor ou redenção.
A verdade — e sabes disso — é que ninguém vai te tirar desse isolamento em que tu mesma se trancou.
E nem poderia.

Tua torre não tem portas.
Não tem escadas, nem janelas abertas de verdade.
Ela não tem saída.
Só tem você aí dentro, tentando convencer a si mesma de que é mais seguro assistir à vida do que viver.

Observas tudo aí de cima:
as cores, os encontros, as árvores dançarinas com suas folhas bagunçadas pelo vento.
Mas observar a vida não é viver.
É só um teatro desbotado de existência.
É sobrevivência tentando se pintar de contemplação.

O tempo passa.
As estações mudam.
Pessoas vêm e vão.
Mas a tua torre permanece:
imóvel, estéril, silenciosa.
Tua torre é um altar onde sacrificas, todos os dias, o que poderia ter sido.

E então chega o momento inevitável:
percebes que só pode descer pela dor.

Essa dor sobe pelas paredes.
Racha o chão sob teus pés.
Ecoa dentro do teu peito.

Porque a única forma de sair dessa prisão
não é pela fuga, nem pelo amor romântico,
nem pelo tempo que cura tudo.
É pela quebra e destruição de padrões antigos.
Pelo fogo.
Pelo colapso da estrutura que já não te serve mais.

Teu antigo eu vai precisar morrer.
Teus medos, tuas histórias mal contadas,
teus pactos silenciosos com a dor.
Tudo isso vai precisar ruir.
Não há outra saída.
É preciso ir
e deixar ir.

E quando a torre cai, você renasce.
Só morre o que já não tinha vida.
Morrem as ilusões, caem os muros,
os condicionamentos que te mantinham pequena são abandonados.

O que sobra é você:
nua, ofegante, em ruínas.
Mas livre.
Finalmente livre.

Teus pés tocam o chão e, a partir das cinzas e da terra, começas a viver de verdade.
Podes usar o que restou dos escombros pra te reconstruir.
Mas agora não será uma (sobre)vida assistida de longe.
Será a vida que habitas,
que escolhes,
onde crias infinitas possibilidades,
dia após dia.

Tua torre, criança, nunca foi salvação.
Às vezes, o que salva é a dor
e o movimento que ela gera.


Depois de alguns meses sem postar texto nenhum (porque tudo que eu escrevia de novo ia pro livro), voltamos!
Reflexão que veio entre a terapia e os estudos de Tarot.
Coisas interessantes tem acontecido nos últimos dias e nunca achei que:
1. Um dia estaria disposta a voltar pra universidade e fazer um mestrado acadêmico
2. O tarot me ajudaria a pensar num projeto de mestrado (por causa da relação com construção de narrativa) 🤷🏻‍♀️
Mas aqui estamos nós, lidando com as coisas inesperadas, bonitas e às vezes doloridas da vida ☺️