Recentemente passei a refazer, de transporte público, o trajeto que eu fazia quando era estudante. Enquanto esperava meu primeiro ônibus chegar, fiquei pensando…
Passei tanto tempo longe daqui e, depois que voltei, percebi que muita coisa mudou. As rotas do transporte mudaram, são menos linhas e menos horários. O trânsito mudou. Avenidas a mais, ruas que trocaram o sentido de tráfego. Também reparei que não há mais cobradores e é o motorista quem precisa fazer o malabarismo de lidar sozinho com o movimento dos carros, o dinheiro, os passageiros impacientes…
Eu gosto que aqui o mar me acompanha durante boa parte do trajeto. Nas cidades onde eu morei enquanto estive fora, um rio me acompanhava. Houve uma época em que eu atravessava um rio num barco também. Eu gosto de olhar pela janela e ver a água.
Andar de transporte público é uma das coisas que mais gosto de fazer quando conheço uma cidade nova. Já peguei ônibus, bondinhos, barcos, trens e metrôs em dezenas de cidades (e até países) diferentes.
Curioso é que me acostumei a ser passageira e até hoje não aprendi a dirigir “de verdade”, apesar de ter carteira de motorista em dois países. Ser apenas passageira me dá a possibilidade de assumir uma postura completamente passiva em relação ao ambiente. Observo a paisagem, as pessoas, presto atenção nas conversas. Posso apenas estar ali, sem fazer nada a respeito. E nisso percebo que em horários diferentes, vivemos cidades completamente distintas na mesma linha de transporte.
Na rota de hoje uma senhora fala alto, conversa alegre com o motorista e tenta equilibrar as sacolas do mercado. Ela está em pé e o ônibus lotado. Ela não liga pra plaquinha de plástico meio desgastada pelo tempo que diz pra não distrair o motorista. Ninguém liga, na verdade. Uma dupla de amigas conversa e ri alto, mas a conversa parece completamente inapropriada pra um ambiente público e isso me faz rir também. Um estudante dorme apoiado na janela. Aberto em seu colo, o livro que o sono não permitiu continuar a ler. Espero que o rapaz não perca o ponto de descida. Às vezes eu perco o ponto mesmo acordada. Fico pensando na quantidade de histórias que passam por mim todos os dias.